UM HOMEM É UM HOMEM
de Bertolt Brecht.
Sinopse
Este texto é o primeiro exemplo de teatro didático e pedagógico na obra de Brecht. E para a demonstração de seu teorema, Brecht utiliza um recurso profundamente teatral, que voltaria a usar em muitas peças: a metamorfose em cena.
A transformação de Galy Gay, que uma certa manhã sai de casa para comprar um peixe para o almoço, um estivador que não bebe e fuma pouco, de quem, segundo ele mesmo, pode-se dizer é um homem sem vícios ( mas que na primeira fala já revela também que é um homem sem opinião), um homem incapaz de dizer "não" e que é em seguida metamorfoseado em soldado e finalmente chegará a negar a sua própria personalidade e identidade ( nega ser quem é inclusive diante da própria mulher e chega a assistir ao enterro de si mesmo), para tornar-se um feroz e sanguinário soldado imperialista, é decupada em cenas curtas, espetáculo dentro do espetáculo ( sobretudo a célebre e extraordinária sequência da venda do elefante que não existe).
Pouco a pouco, na peça, se sucedem diversas metamorfoses, além da fundamental que é a transformação de Galy Gay no soldado Jeraiah Jip; Jip é transformado num deus pagão; e, paralelamente à metamorfose do civil em soldado, assistimos também o movimento inverso: o Sargento Faichild, que quando chove passa de uma brutalidade bestial a uma sensualidade idem , termina castrado (para conter seu impulso) e civil.
Galy Gay passa a viver cegamente sua própria alienação. Se aliena quando quer ser um comerciante para vender o elefante, quando não admite que o seu nome seja pronunciado, quando se transforma definitivamente em soldado. Mas segundo o próprio autor, não é um fraco, mas torna-se forte quando se incorpora na massa, deixando de ser um indivíduo privado.(...).
Brecht coloca em questão o significado ético da contradição entre coletividade e individualidade. E ergue sua voz com veemência, através desta parábola cuja ação se desenvolve durante a colonização inglesa numa Índia fictícia, contra a massificação que estava ocorrendo naqueles dias na Alemanha. Pouco a pouco o nazismo ganhava terreno e força.
Fernando Peixoto / BRECHT - VIDA E OBRA / Paz e Terra.(64-65)
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